Folha seca no lixo


Jos Lutzenberger

A luxuriante Hilia, a floresta tropical mida da Amaznia, floresce h milhes de anos sobre os solos que esto entre os mais pobres do mundo. Este fato intrigava muitos cientistas. O grande cientista alemo, explorador da Amaznia, Alexander Von Humboldt, ainda pensava que a floresta to viosa, alta e densa, era indicao de solo muito frtil.

Como pode haver tanta vegetao, crescendo to intensivamente, sobre solo praticamente desprovido de nutrientes? O segredo a reciclagem perfeita. Nada se perde, tudo reaproveitado. A folha morta cai ao cho, desmanchada por toda sorte de pequenos organismos, principalmente insetos, colmbolos, centopias, caros, moluscos e depois mineralizada por fungos e bactrias. As razes capilares das grandes rvores chegam a sair do solo e penetrar na camada de folhas mortas para reabsorver os nutrientes minerais liberados.

Poucas semanas depois de cados, os nutrientes esto de volta no topo, ajudando a fazer novas folhas, flores, frutos e sementes. A floresta natural no necessita de adubao. Assim a floresta consegue manter-se atravs de sculos, milnios e milhes de anos. A situao no diferente em nossos bosques subtropicais, nos campos, pastos ou banhados. A vida se mantm pela reciclagem. Assim deveramos manter a situao em nossos jardins.

Um dos maiores desastres da atualidade, um desastre que est na base de muitos outros desastres, o fato de estar a maioria das pessoas, mesmo as que se dizem cultas e instrudas, totalmente desvinculadas espiritualmente da Natureza, alienadas do Mundo Vivo.

As pessoas nascem, se criam entre massas de concreto, caminham ou rodam sobre asfalto, as aventuras que experimentam lhe so proporcionadas pela TV ou vdeo. J no sabem o que sentir orvalho no p descalo, admirar de perto a maravilhosa estrutura de uma espiga de capim, observar intensamente o trabalho incrvel de uma aranha tecendo sua teia. Capim, alis, s bem tosadinho no gramado, de preferncia quimicamente adubado! Se no estiver tosado, feio! Na casa, a desinsetizadora mata at as simpticas pequenas lagartixas, os gekos.

A situao no melhor nas universidades. No Departamento de Biologia de uma importante universidade de Porto Alegre, encontra-se um ptio com meia dzia de rvores raquticas. Ali o solo mantido sempre bem varrido, nu, completamente nu! As folhas secas so varridas e levadas ao lixo. No distinguem sequer entre carteira de cigarro, plstico e folha seca, para eles tudo lixo. J protestei vrias vezes. Os professores e bilogos nem tomam conhecimento. Pudera! Hoje a maioria dos que se dizem bilogos, mais merecem o nome de necrlogos, gostam mais de lidar com vida por eles matada do que dialogar com seres e sistemas vivos. Preferem animais em vidros com lcool ou formol, plantas comprimidas em herbrios. So raros, muito raros, hoje, os verdadeiros naturalistas, gente com reverncia e amor pela Natureza, que com ela mantm contato e interao intensiva, gente que sabe extasiar-se diante da grandiosidade da maravilhosa sinfonia da Evoluo Orgnica.

Por que digo estas coisas em "A Gara"? Atrs do prdio onde estava a Florestal da Riocell, onde estou agora instalado com meus escritrios da Tecnologia Convivial e da Vida Produtos Biolgicos, existe um barranco onde esto se desenvolvendo lindas "seringueiras". Na realidade, no so seringueiras, so plantas da mesma famlia que nossas figueiras, mas so oriundas da ndia. Alm de crescerem pelo menos dez vezes mais rpido que nossas figueiras, fazem lindas razes areas e lindas tramas superficiais no solo. A alienao, que predomina entre ns, em geral, faz com que sejam demolidas to logo atinjam tamanho interessante e aspecto realmente belo.

As Ficus elsticas a que me refiro, fizeram um lindo tapete de folhas secas. Este tapete segura a umidade do solo, mantm o solo poroso e aberto para a penetrao da gua da chuva e evita a eroso, especialmente na parte mais ngreme do barranco, j bastante erodida, porque no passado, ali, as folhas eram sempre removidas. Este tapete promove tambm o desenvolvimento da vegetao arbustiva e rasteira que dar ainda mais vida ao solo e abrigo fauna, como corruras e tico-ticos, lagartixas, insetos, etc. Da janela do meu escritrio alegro-me cada vez que posso observar esta beleza.

Houve quem insistisse em que varrssemos para deixar o solo nu. Fao um apelo a todos que ainda no o fizeram, observem este aspecto importante e construtivo da Natureza, aprendam a ver a beleza na grande integrao do Mundo Vivo. No vamos varrer!

Publicado em "A Gara" - Jornal da Riocell, em 13 de Fevereiro de 1990.





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