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Ecopedagogia e profissão docenteFlávio Boleiz Júnior A atualidade tem-se mostrado caótica e, conseqüentemente, incompreensível para a maioria das pessoas. A globalização capitalista vem acentuando a dominação, exploração e manipulação social por parte dos poderosos. A xenofobia, explícita em algumas regiões do Globo e dissimulada em outras aparentemente mais democráticas, apresenta-se, ainda, como uma grande chaga social. O desequilíbrio econômico generalizado, gerado pelas especulações de investidores que buscam enriquecer a qualquer custo, continua a fomentar a opressão econômica de, pelo menos, dois terços da população do nosso planeta, acentuando as distâncias entre ricos e pobres, no que Frigoto (1995) nomina Capitalismo Real. Guerras localizadas levam sofrimento e crueldade a vários pontos de todos os continentes, enquanto que as reações terroristas geram medo e insegurança por toda parte. O predomínio generalizado do ideal capitalista consumista gera, descontroladamente, a destruição progressiva dos bens naturais. As relações entre as pessoas e entre as nações têm gerado exclusão social das minorias, desprezo às suas culturas e aos seus ideais, necessidades e dignidade. Tantos problemas presentes no mundo contemporâneo, no mais das vezes, impedem vislumbrar, sequer, uma ponta de luz no fim do túnel sem causar a sensação de que aquilo que se vê é, fatidicamente, um trem vindo na contramão. Toda essa conjuntura real dificulta, em muito, a assunção de uma postura de esperança, de confiança num devir de paz e eqüidade social. O pensamento neoliberal tem conseguido, a cada dia, incutir em nossas mentalidades a desesperança no formato de um programa que se prescreve no cotidiano de nossas relações sociais, e nos ensina Paulo Freire (1992) que "como programa, a desesperança nos imobiliza e nos faz sucumbir no fatalismo onde não é possível juntar as forças indispensáveis ao embate recriador do mundo. (...) Pensar que a esperança sozinha transforma o mundo e atuar movido por tal ingenuidade é um modo excelente de tombar na desesperança, no pessimismo, no fatalismo. Mas, prescindir da esperança na luta para melhorar o mundo, como se a luta se pudesse reduzir a atos calculados apenas, à pura cientificidade, é frívola ilusão." (FREIRE, 1992, p. 4) Tal alerta nos chama à reflexão com relação a nossas escolhas diante da profissão docente. Se acreditamos na importância do processo educativo para a transformação do mundo, não podemos admitir uma postura pessimista. Assumir-se como educador implica compromisso para consigo mesmo e para com os educandos. Hanna Arendt nos diz que o educador tem que ser uma pessoa que "ame a sua condição humana e, por conseguinte, as novas gerações" (ARENDT, 1997, p. XX) e, por extensão, toda a humanidade. Oras, amor demanda esperança ao mesmo tempo que cuidado e compromisso. Diante da conjuntura social contemporânea, como é que podemos exercer a função de educadores-sujeitos-amantes-da-condição-humana? Como deve ser nosso agir? Desejamos estar engajados na busca de uma transformação social que garanta ao presente, às novas gerações, e a toda humanidade, melhores condições de vida, de igualdade, de justiça, de inclusão e inserção social; em uma palavra, um outro mundo mais humano? Buscamos respostas a essas perguntas tão pertinentes a todos os tem-pos - tão presentes nas entrelinhas dos diálogos de Sócrates retratados por Platão há mais de dois milênios. São questionamentos tão latentes em nosso momento presente, que não podemos deixar de pensar, refletir, na questão dos valores de vida antropofágicos que a ideologia dominante vem disseminando de maneira hegemônica; pois as relações de poder, tal como se apresentam no tempo atual, legitimam, a cada dia, a expressão latina que sentencia: "hominus lopus homini" . O ser humano vem se apresentando a seu semelhante como o mais temível e terrível de todos os predadores da natureza e de sua própria espécie. Destrói a natureza, destrói as relações interpessoais, destrói a cultura das mininorias, destrói, enfim, a si mesmo. Parece lógico que necessitamos buscar formas de reverter essa situação, de inverter esses valores, de construirmos uma re-humanização da espécie humana. Levando em conta nossa condição de profissionais docentes, como podemos contribuir para a valorização de questões e paradigmas voltados para o estabelecimento de uma sustentabilidade mundial? Como ensinar a reverência à Terra e a cada um dos entes que formam sua grande comunidade de vida? Como trabalhar e ensinar uma outra maneira de relacionar-se pautada no equilíbrio, na inserção social, na paz, no respeito indistinto e na liberdade para todos e para o todo? Incomodado por esses pensamentos, gostaríamos de propor uma reflexão acerca de nossas próprias atitudes. Sugerimos uma revisão de nossas práticas em nosso cotidiano familiar, em nossos fazeres profissionais e em nossa concepção do conceito tão desgastado e ao mesmo tempo tão atual e necessário que é o de cidadania. Faz parte de nossas atribuições de educadores ensinar cidadania, mas que cidadania? Uma cidadania regionalista ou nacionalista? Uma cidadania que se traduz por obediência, por integração ao sistema, ao status quo? Ou uma cidadania comprometida com cada ser humano vivente e por viver em nosso Planeta: algo que possamos afirmar como, de fato, uma cidadania planetária? Trata-se de decidirmos se desejamos assumir uma postura de compromisso para com todos os homens e mulheres, independentemente do lugar de onde vieram e de como compreendam ser melhor viver. A Carta da Ecopedagogia (UNESCO, 1999) têm-se referido à Terra como um organismo vivo, que age, reage e interage em consonância com estímulos que recebe de todo seu entorno universal - estímulos que vêm de fora - e outros que recebe de sua própria superfície, como conseqüência das ações levadas a cabo por seus habitantes. Se não há muito que fazer quanto aos estímulos externos, grande é a quantidade de ações que se pode implementar, desde já, no que diz respeito aos estímulos que nós lhe temos aplicado. Parece constituir senso comum que, ao falar-se em sustentabilidade e preservação ambiental, remete-se o pensamento às ações que os governos, as empresas, as organizações não-governamentais podem e devem implementar como formas de combate à poluição, à destruição e degradação do mundo. De fato essas ações são importantes e necessárias, mas não bastam se desejamos construir um mundo diferente - como diz o lema do Fórum Social Mundial: um outro mundo é possível. Uma tomada consciente de postura diante da vida deve permear todas as ações de nosso dia-a-dia, desde as menores até as mais complexas. Ações que vão do banho mais rápido como forma de preservação de água e energia, até o engajamento em projetos de luta pela igualdade e a inclusão social das minorias de nossa sociedade próxima ou global. A Carta da Ecopedagogia nos auxilia na reflexão a respeito de nossos fazeres, de nosso agir pessoal cotidiano em todos os lugares onde se desenrola nossa vida, ao alertar-nos para o fato de que as "Experiências cotidianas aparentemente insignificantes, como uma corrente de ar, um sopro de respiração, a água da manhã na face, fundamentam as relações consigo mesmo e com o mundo. A tomada de consciência dessa realidade é profundamente formadora. O meio ambiente forma tanto quanto ele é formado ou deformado. Precisamos de uma ecoformação para recuperarmos a consciência dessas experiências cotidianas. Na ânsia de dominar o mundo, elas correm o risco de desaparecer do nosso campo de consciência, se a relação que nos liga a ele for apenas uma relação de uso." (UNESCO, 1999, item 8) Para o educador e a educadora a formação de cidadãos planetários deve ser uma preocupação constante, meio que naturalizada a partir de sua conscientização. Em cada atividade da sala de aula ou de qualquer espaço educativo, se o que se deseja lograr é um devir harmonioso para toda a humanidade, não pode agir em contradição com sua crença na humanidade e na possibilidade de transformação do mundo. É preciso que ofereça uma formação que transcenda a teoria, o discurso do professor, e se materialize nos seus próprios exemplos de vida diante dos educandos. Historicamente o modo de produção hegemônico vem doutrinando os homens de modo a buscarem defender os bens da família e da pátria como virtude primordial no exercício da cidadania. Uma visão planetária por parte do educador deveria apresentar aos seus alunos a Terra como pátria e a humanidade toda como grande família global com interesses em comum. Distantes mas igualmente importantes, apesar das diferenças e peculiaridades de cada povo, de cada comunidade, da rica diversidade que observamos ao remetermos nosso olhar para cada ser humano. Se o trabalho do educador estiver pautado na compreensão desse interesse universal da humanidade, sem perder de vista o meio local onde está inserido, já estar-se-á iniciando o trabalho de libertação dos oprimidos do mundo. Trabalho fundamentado naquela Pedagogia comprometida com a esperança de um mundo melhor. Trabalho afinado com o que Paulo Freire chama, em sua obra, de "Inédito Viável" (FREIRE,1992 , p.5). Uma Pedagogia preocupada com o equilíbrio do homem no ambiente onde vive, com seu semelhante, com a Terra - a casa de todos nós - e todas as espécies que a habitam; comprometida com um bem-estar sócio-cósmico (Leonardo Boff). Uma Pedagogia da Sustentabilidade ou, no dizer de Gutiérrez e Prado, uma Ecopedagogia (GUTIÉRREZ; PRADO, 1999). Filosoficamente comprometida com todas as causas sociais que buscam a igualdade e eqüidade humanas no planeta como um todo inteligente, a Ecopedagogia oferece ao homem a possibilidade de uma mudança radical de mentalidade, em relação à qualidade de vida e ao meio ambiente. Na Carta da Ecopedagogia, lemos: "A planetaridade deve levar-nos a sentir e viver nossa cotidianidade em conexão com o universo e em relação harmônica consigo, com os outros seres do planeta e com a natureza, considerando seus elementos e dinâmica. Trata-se de uma opção de vida por uma relação saudável e equilibrada com o contexto, consigo mesmo, com os outros, com o ambiente mais próximo e com os demais ambientes." (UNESCO, 1999, item 4) Mais que simplesmente levantar questões sobre o grande tema da sustentabilidade, procuramos sugerir reflexões que norteiem, didática e pedagogicamente, o trabalho de todos os educadores e educadoras e de todos os homens e mulheres identificados com esses ideais, em busca da "formação de cidadãos com consciência local e planetária que valorizem a autodeterminação dos povos e a soberania das nações". (Idem, item 6) Se a escola é, legitimamente, a "instituição social responsável pela continuidade da socialização das novas gerações e pela produção e reprodução dos saberes necessários a esse processo socializador" (MADEIRA, 1999, p.55), em seu seio devem-se sedimentar as bases de um conhecimento comprometido com a qualidade de vida dos sujeitos sociais, pautadas na convivência harmoniosa de toda a diversidade que compõe aquilo a que estamos nos referindo como cidadania planetária. O conceito de cidadania em si, deriva de outro conceito importante para sua própria apreensão, que é o de "civitas" - em latim, cidade - que no mundo romano corresponde à polis, Cidade-Estado dos gregos. O conceito de cidadania, pois, encontra sua idéia-força no que diz respeito à liberdade - real ou ilusória - de que dispunha o homem livre, habitante da cidade, em comparação com o escravo ou o servo da gleba. Pensando a relação entre cidadania e cidade (cidade-estado), os gregos antigos tinham muito clara a importância de uma convivência coletiva pautada na harmonia como garantia de sua própria sobrevivência. Tinham na polis o lugar onde sua liberdade e seus direitos eram reconhecidos e respeitados. Os deveres e direitos eram amplamente discutidos e o senso de democracia pairava acima de todas as questões individuais. O ideal a que aludimos ao falarmos uma cidadania planetária vai ao encontro dessa vivência plena da condição de sujeitos sociais. A civitas-polis, aqui, é o planeta como um todo - que os gregos chamavam de "Gaia" (Gaia) grande deusa criadora e mantenedora da vida, anterior, mesmo, a Zeus (Zeus), o deus dos deuses. A aplicação universalista que desejamos atribuir a esse conceito de cidadania planetária, busca a igualdade entre todos os homens e não aceita que apenas alguns sejam cidadãos. Todos são naturais da grande civitas/polis Terra e são inaceitáveis a escravidão e a subserviência em qualquer circunstância, ainda que o pensamento hegemônico, tantas vezes, nos tente reduzir a identidades que nos fazem viver como se fôssemos, ainda, habitantes das glebas. Não é objetivo da Ecopedagogia massificar e mundializar uma determinada cultura, um determinado molde onde todos devam se encaixar para viver. Antes pretende oferecer subsídios para ações educativas que respeitem a cultura local ao mesmo tempo em que não excluam, enquanto valor, as culturas de todos aqueles que sejam diferentes. Subsídios que valorizem o respeito, a tolerância e a harmonia com o diverso. A sustentabilidade da vida no planeta clama por atitudes dessa monta: atitudes que militem efetivamente em defesa da inclusão social de todos e todas e nas lutas contra a exclusão. Trabalhando conscientes de que é possível semear, na atividade educativa, a construção de uma nova ordem mundial, aprendendo e apreendendo uma visão planetária de vida e de mundo, assumindo para a própria vida uma filosofia holística e mundializadora da cidadania, estaremos implementando uma base ética no desempenho das funções docentes que se dêem em consonância com a Ecopedagogia. A boa vontade, como condição de humanidade diante da lida com os conflitos, a vontade de prosseguir vivendo harmonicamente, apesar de toda e qualquer diferença, buscando a convergência dos interesses de todos, é o caminho a trilhar que nos enche, hoje e sempre, de esperança. * Mestrando em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, Professor Universitário e Educador do Movimento pela Ecopedagogia. BIBLIOGRAFIA ARENDT, Hannah. Entre o Passado e o Futuro, São Paulo: Pers-pectiva, 1997. BOFF, Leonardo. Ecologia - Grito da Terra, Grito dos pobres, São Paulo: Ática, 1995. BOFF, Leonardo. Saber Cuidar - Ética do humano, compaixão pela Terra, Petrópolis: Vozes, 1999. FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança - Um reencontro com a pedagogia do oprimido, São Paulo: Paz e Terra, 1992. FRIGOTTO, Gaudêncio. Educação e a crise do capitalismo real, São Paulo: Cortez, 1995. GUTIÉRREZ, Francisco & PRADO, Cruz. Ecopedagogia e cidadania planetária, São Paulo: Cortez, São Paulo, 1999. MADEIRA, Helena M. P. "A Socialização Escolar do Indivíduo", In: O Professor, (periódico) nº 63, III Série, Janeiro-fevereiro, pp. 53-58, 1999. UNESCO, Carta da Ecopedagogia, 1999, www.paulofreire.org. |
| Criado em 28/06/2010. << Voltar Esta é uma versão otimizada para celulares. Acesse o site completo aqui |
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