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O jardim deve ser o novo centro da escolaGuilherme Blauth Tamanha a crise da escola que qualquer tábua de salvação pode virar bandeira. Ultimamente tenho ouvido dizer que o computador é indispensável para a escola do futuro, que conhecer a tecnologia será fator determinante, haverá exclusão dos analfabetos digitais. Mas até hoje não se sabe bem qual é realmente o papel do computador na escola. Digo papel pedagógico, porque papel operacional ele tem, ajudar na comunicação da escola, permitir a pesquisa dos alunos, programas de gestão, etc... Mas qual é a vantagem educacional do computador? Vi há dois anos professores de uma escola do interior de Santa Catarina maravilhados com programas da Disney para "ensinar entretendo" ou "ensinar o entretenimento". É para isso que servem os computadores? Que tristes os alunos sentados nas salas informatizadas, aprendendo a ferramenta do emprego que terão no futuro... Ao chegar na escola já ocupamos a frente do nosso computador que nos permite viajar, pesquisar e comunicar. Dez ou doze anos diante da telinha, aprendendo tudo virtualmente, distante da realidade da Terra e da humanidade. Cada um na frente da sua máquina e o professor orientando as pesquisas na Internet. Será esse o futuro? Não quero que me compreendam mal, não tenho nada contra o computador, até escrevo este texto em um deles, mas devemos encaminhar o ensino para a sustentabilidade, para a felicidade e a solidariedade. Ensinar e aprender, como dizia nosso mestre Paulo Freire, acontece a partir do diálogo, do relacionamento interpessoal. E para isso os computadores pouco servem. Proponho um olhar radicalmente diferente para a escola do futuro: as tecnologias que devem aflorar não são as tecnologias dos chips, mas as tecnologias dos jardins. Infelizmente existe nas cidades a cultura do concreto que também aparece nas escolas: quadras ao invés de jardins. Quadras esportivas dão menos trabalho, não "sujam" os pátios, os alunos jogam bola, nas quadras não cresce mato. Mas também não florescem na primavera, não dão frutos nem sombra. Nunca atraem passarinhos. A verdade é que o jardim quase sempre é desprezado, ou tem apenas funções estética e decorativa, meia dúzia de pinheiros e palmeiras para enfeitar, um vasinho de flores e pronto. Aprender na horta escolar ainda é um privilégio de poucos. No jardim mora a vida, em toda a sua diversidade e beleza. Trabalhando o solo podemos vivenciar os ciclos da vida, das estações do ano, sentir as influências do ciclo da lua, observar o ciclo da água, dos nutrientes, o fluxo da energia e assim por diante. Podemos ver a cadeia alimentar, o solo, animais minúsculos que vieram se alimentar, árvores dando espaço para outras árvores menores. Outras se esgueirando para encontrar um pouco de luz. Segundo o físico Fritjof Capra, o contato com o jardim é uma das maneiras mais simples e eficientes de alfabetizar ecologicamente crianças e adultos. O jardim é transversal, escora todas as disciplinas dentro de um contexto que é arte, ambiente, cultura e economia ao mesmo tempo. São amplas as possibilidades pedagógicas do trabalho no jardim, desde a convivência com os seres vivos até a criação de tecnologias de jardim como treliças, viveiros, composteiras. Mas é preciso saber fazer e infelizmente muitos de nossos professores nunca tiveram nenhum contato com a terra, limitando sua prática docente a tarefas cognitivas, muitas vezes seguindo um currículo descontextualizado e ultrapassado. Os alunos aprendem a copiar. Penso numa horta diferente, não mais aquela horta quadrada com as alfaces enfileiradas, todas marchando. Já existem hortas circulares, mandálicas, com espécies comestíveis, flores convivendo com ervas medicinais. É possível começar reciclando o lixo orgânico da escola. O lixo orgânico é o lixo vivo, as cascas, sobras de alimentos, folhas que caem das árvores, poda etc. A compostagem é um processo bioquímico que permite acompanhar a ciclagem de energia do planeta. A matéria orgânica é decomposta por insetos, miriápodes, fungos, vermes e bactérias, produzindo composto orgânico extremamente fértil e pronto para ser usado em hortas e no jardim. O jardim é prazer e nasce do sonho, como insiste o escritor Rubem Alves. Ele diz que antes do jardim há o sonho do jardineiro que imagina a beleza e a fartura e se arrisca a lidar com a terra, fecundando nela muitas sementes. É incrível, muitas sementes germinam sem muita dificuldade se não as pusermos no lixo e oferecermos um ambiente razoavelmente adequado. Mas é preciso cuidado, se não aguar morrem. E então chegamos ao centro da questão: o jardim desenvolve valores essenciais, como o cuidado e a paciência. Ninguém planta feijão para colher na semana seguinte. Muitas espécies como o abacaxi levam até dois ou três anos para produzirem fruta. Se eu plantar uma canela para fazer um móvel vou esperar 30 ou 40 anos. Plantamos para nossos filhos e netos, para as gerações seguintes que nem conheceremos. É a solidariedade com os que virão ao planeta. Algumas espécies que plantamos nem são para colher, só para admirar. Outra parte deixamos para os pássaros, para os insetos. Compartilhamos nosso alimento com eles, o que importa não é o lucro ou a produtividade máxima, mas o equilíbrio do sistema, seja uma floresta enorme ou a horta escolar. Educar no jardim significa explorar um lugar mágico, onde a cada centímetro quadrado existe uma surpresa fazendo cócega na imaginação, provocando o espanto, ajudando a crescer as nossas asas, veias artísticas e espirituais, que estimulam nossa conexão com o todo, alegremente desconhecido. * Texto de 2004. |
| Criado em 28/06/2010. << Voltar Esta é uma versão otimizada para celulares. Acesse o site completo aqui |
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